O maior risco dos títulos do Tesouro Direto

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Imagem: 25 Mai, 2020 Brasília, Marcos Correa

A renda fixa, não é fixa. É estranho ler isso, quando descobrir isso fiquei bem confuso, levou um tempo para mim compreender.

E, não é tão complicado compreender essa questão, a modalidade de investimento de renda fixa, tem esse nome, pois tem alguns elementos fixados, como juros.

Dessa forma, antes de começar a explicar por que a renda fixa, não é fixa, preciso demonstrar que os investimentos são produtos também, assim como uma maçã, banana, um celular, e uma casa.

É simplesmente isso, o CDB, Tesouro Selic, são produtos, mas com características distintas, uma das diferenças é que são produtos “financeiros”, e não produtos de consumo.

Nessa lógica, todo produto, tem sua utilidade, por isso que as pessoas trocam eles por dinheiro.

A maçã e a banana servem para nutrir nosso corpo, o celular serve para nos comunicarmos, e o Tesouro Selic serve para aumentar nosso dinheiro e proteger o poder de compra dele, através de pagamento de juros.

Como todo produto na economia, também podemos comprar e vender o Tesouro Selic. Logo, também temos que lembrar que o preço dos produtos também muda.

Os motivos dessas mudanças de preços são diversos, e pode ser explicado através da oferta e demanda.

Por que os preços das coisas mudam?

Exemplo, uma praga de gafanhotos destruiu a plantação de uma fazenda de macieira da cidade de São Rico.

Nessa cidade, as pessoas consomem muita maça, no entanto, com essa praga, as maças ficaram escassas em São Rico.

Como as pessoas não estão achando as maças que tanto gostam no supermercado de São Rico. Elas acabam indo para o supermercado de outra cidade procurar maças.

Nesse contexto, o dono do mercado de São Rico percebe que o mercado anda menos cheio, e percebe que os clientes estão indo em outra cidade para procurar maças.

Ao perceber isso, ele correu para a fazenda, para comprar mais maças, caso contrário ele acabaria perdendo cada vez mais vendas.

Porém, o dono da fazenda, tem poucas maças para vender, e essas poucas maças não cobrem o custo de produção dele, já que ele perdeu muitas para a praga de gafanhotos.

Nessas circunstâncias, para cobrir os custos, o fazendeiro precisa aumentar o preço da maça, e o dono do mercado, precisa repor seus estoques de maça para não perde mais vendas.

Logo, ele acaba comprando a maça por um preço mais caro e repassando esse preço para o cliente, já que o dono do mercado também preciso cobrir seus custos, como salário, luz, água.

Com essa história, eu quero demonstrar que as variáveis do mercado, alteram os preços dos produtos constantemente.

O efeito da escassez

No caso da maçã, foi as pragas que, diminuíram a oferta da fruta. Mas poderia ser qualquer coisa, como a falta de água, ou uma mudança abrupta do clima, o mundo está em constante mudança.

Dessa forma, quando o mercado tem a oferta menor que a demanda, o preço aumenta.

O exemplo mais recente e perfeito para compreender isso melhor, foi a falta de álcool gel no inicia da pandemia da corona vírus em 2020.

Com isso, vamos compreender as variáveis do mercado de títulos públicos, é porque suas taxas e preços mudam.

Marcação a mercado dos títulos

Marcação a mercado é a atualização diária dos preços e das taxas de juros dos títulos públicos.

Ela acontece por causa do mercado secundário, nele os bancos, empresas e fundos de investimentos compram e vendem títulos do governo.

Essas negociações de compra e venda influenciam os preços e taxas dos títulos ofertados na plataforma do Tesouro Direto.

Como o governo só garante a recompra no Tesouro Direto para as pessoas físicas, as pessoas jurídicas acabam negociando entre si no mercado secundário.

Para detalhar melhor como funciona a marcação a mercado vou usar dois exemplos, cada um com cenários distintos.

Destaco quatro fatores essenciais para compreensão da marcação a mercado, como (1) taxa de juros, (2) prazo do título,  (3) preço inicial (Investimento Inicial) e (4) preço final (resgate).

Primeiro exemplo sobre marcação a mercado dos títulos públicos

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Imagem : Consciência de Investidor

O Tesouro Prefixado é emitido pelo governo em 2020, o prazo é de 3 anos equivalente a 1095 dias corridos para quem comprar ele em 2020.

A taxa de juros que o investidor vai ganhar nesse período de 3 anos é de 10 %.

E o valor unitário desse título é R$ 751,31, geralmente as pessoas físicas compram esse título fracionado dividido por 10, sendo o valor fracionado R$ 75,13, esse valor fracionado seria o investimento mínimo.

Porém, por motivos didáticos, vou considerar que o investidor aplicou R$ 751,31, ou seja, ele comprou 1 título completo e não a fração dele.

E, lembrando que o valor de resgate (preço final), caso o investidor segurar até o vencimento, é sempre fixo, nesse exemplo coloquei R$ 1000.

Contudo, há outros investimentos que o preço inicial é fixo e não o preço final, como por exemplos, os CDB´s.

No primeiro cenário, estou atualizando apenas o tempo, deixando a taxa de juros fixa.

Estou fazendo isso, por motivos didáticos, mas na marcação a mercado a taxa de juros também é atualizada diariamente em paralelo com o tempo.

Pessoa X vs pessoa Z

Nesse cenário, reparem, a pessoa X que comprar o Tesouro Prefixado 2023, em 2020, vai fazer um investimento inicial menor.

Isso acontece porque o dinheiro fica investido mais tempo, por consequência, ele recebe mais juros para chegar em R$ R$ 1000 em 2023.

Enquanto, a pessoa Z que investir em 2021 precisará fazer um investimento inicial maior do que a pessoa X, para investir nesse título.

Já que irá receber menos juros para chegar em R$ 1000, porque seu prazo de investimento é menor.

Antes, para a pessoas X era 3, e 1 ano depois a pessoa Z investiu, logo, ficou sobrando 2 anos para a pessoa Z. Nesse cenário, o prazo mudou, o preço do título é impactado também.

Diferença entre valor absoluto e valor percentual.

Como essa pessoa Z investiu mais tarde, ela recebe menos juros em reais, porque os juros em reais também são impactados com a redução do prazo.

Destaco que isso, não é bom ou ruim, pois, os juros em PORCETAGEM do investimento são os mesmos 10 % ao ano.

Quando estou falando de juros em reais, quero dizer o valor em reais, o valor absoluto. Por outro lado, também temos juros em porcentagem.

Por exemplo, os juros em valores absolutos que a pessoa X irá receber são de 248,69 reais.  Já os juros em valores absolutos que a pessoa Z irá receber são de 173,55 reais.

Entretanto, ambos os juros em porcentagem pagarão 10 % no PERÍODO DE INVESTIMENTO, nesse exemplo do cenário 1, na imagem acima.

Se você é leigo no assunto, realmente acaba sendo complicado. Mas continue lendo que o contexto ficará mais claro.

E caso, ambas as pessoas segurem até 2023, ambas vão receber mil reais. A diferença é que pessoa X deixou mais tempo e vai ganhar mais juros em reais por isso.

Como disse antes, tudo muda, o tempo todo, e no caso dos títulos públicos a variação do prazo, causa a variação no preço inicial do título.

Assim sendo, como a variação na produção por causa de uma praga, pode gerar uma redução na oferta de maçã, e essa redução gera um efeito no preço da fruta.

Após compreender que a variação do prazo gera mudanças no preço de compra (preço inicial) do título. Vamos considerar a variação de mais um fator, a taxa de juros.

Essa lógica, se aproxima da realidade, porque no mundo real a taxa de juros está sempre mudando, fixei a taxa de juros anteriormente por abordagem didática.

Segundo exemplo (mais realista) sobre marcação a mercado dos títulos públicos

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Imagem: Consciência de Investidor

O segundo cenário é um pouco mais complexo, porém é assim que a marcação a mercado funciona, é onde está o maior risco, caso você queira resgatar seu investimento antes do vencimento.

Por outra lado, é onde estão as melhores oportunidades, caso queira especular com títulos públicos.

As taxas de juros dos títulos públicos são influenciadas diretamente pela Selic. E a SELIC é alterada de acordo com os “fundamentos macroeconômicos” determinados através das políticas monetária, cambial e fiscal.

Um dos principais elementos de uma economia é a “inflação”, a política monetária serve justamente para administrar o aumento de preços na economia.

A taxa Selic é o principal instrumento de política monetária, quando a inflação sobe, geralmente a taxa de juros Selic sobe também, ao contrário também acontece.

A inflação é algo difícil de controlar. Países subdesenvolvidos como o Brasil, tendem a ter problemas com a inflação.

Portanto, tendem a ter muitas variações na taxa de juros. Logo, se compararmos o cenário didático com o cenário real, veremos que a análise de um título público fica mais complexa quando os juros estão variando.

No primeiro cenário, fica óbvio que o preço do título sempre vai aumentar ao decorrer do tempo, pois, o preço sempre chegará em R$ 1000 linearmente, formando uma “curva teórica”.

Com isso, não existe um risco de prejuízo caso o investidor queira vender o título de investimento antes do vencimento.

Entretanto, no segundo cenário, o investidor não sabe quando o preço do título pode aumentar ou diminuir

Porque, a taxa de juros não é mais fixa, mas o preço final continua fixo, R$ 1000, só que o preço não sobe em linha reta igual o cenário 1.

Distinção entre o exemplo um e exemplo dois

Mas destaco mais uma vez que quando você compra o título, a taxa é fixada no momento da compra.

Porém, caso você queira vender antes do vencimento, estará sujeito a marcação a mercado, exemplificada na linha verde da imagem abaixo.

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Imagem: Finclass | José Franco

Dessa maneira, você está correndo o risco demonstrado no segundo cenário representado na linha verde.

Ou seja, se você comprar em 2020 o Tesouro Prefixado 2023 por R$ 751,31, pode ser que 1 ano depois, ele esteja valendo R$ 694,44 ou R$ 907,03. Isso vai depender da variação da taxa Selic.

O primeiro exemplo é representado pela linha marrom na imagem acima, por outro lado, o segundo exemplo é representado pela linha verde, como já dito.

Mas ressalto, que na plataforma do Tesouro Direto, os preços são atualizados de acordo com o cenário real.

E, no caso de a taxa de juros aumentar de 10 % para 20 %, o site do Tesouro Direto vai mostrar um prejuízo.

No entanto, esse prejuízo só é realizado, se você vender o título, isso vale para o lucro também.

Supondo que a taxa não subiu, e caiu de 10 % para 5 %, o título que você comprou por R$ 751,31 está em R$ 907,03 agora.

Assim sendo, você só recebe esse dinheiro se vender ele, pode acontecer da taxa voltar a subir de 5% para 20% ou 25 % e o preço inicial do título voltar a cair para o patamar de R$ 694,44.

Por outro lado, isso não é valido para quem segurar até o vencimento, porque sua rentabilidade é garantida.

Ou seja, a taxa de juros é fixada no momento da compra. Estou repetindo para ficar claro, pois, o Tesouro Direto é um investimento conservador para pessoas que pretendem segurar os títulos até o vencimento.

Conclusão

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Imagem : Consciência de Investidor

Essa é a fórmula que usei para calcular os cenários. A princípio, a marcação a mercado parece complexa, mas é bem simples se for seguindo algumas regras.

A primeira é, títulos prefixados tem uma relação inversa com as taxas de juros. Isso quer dizer que quando as taxas sobem, o preço inicial dos prefixados caem.

E, quando as taxas caem o preço inicial dele sobe. Títulos pós fixados como o Tesouro Selic tem uma relação direta com os juros, ou seja, quando os juros sobem, o preço inicial desse título sobe, e vice-versa.

Portanto, comparando produtos de consumo como frutas e produtos financeiros como os títulos do governo federal.

Podemos identificar que as variáveis que impactam o preço das frutas, podem ser pragas, mudanças climáticas etc.

Enquanto as variáveis que alteram os preços dos títulos públicos são o passar do tempo, mercado secundário e a taxa de juros. Sendo esses os principais fatores que geram a marcação a mercado.

Caso você tenha interesse em investir em títulos públicos, indico o artigo “Investir no Tesouro Direto é arriscado?” que explica os três títulos públicos disponíveis para pessoal física.

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