O agronegócio é um dos pilares mais sólidos da economia brasileira, respondendo por cerca de 25% do PIB nacional.
Mas, por muito tempo, acessar esse setor como investidor exigia comprar ações de empresas específicas ou adquirir terras — opções distantes da realidade da maioria das pessoas. Com a criação dos FIAgros, isso mudou.
Em 2025, os FIAgros foram a classe de fundos listados com melhor desempenho na bolsa, registrando rentabilidade média ponderada de aproximadamente 24% no ano.
Para 2026, com a taxa Selic ainda em patamar elevado, investir em FIAgros segue no radar de analistas e gestoras como uma alternativa interessante de renda passiva.
Como a taxa de juros Selic influência a economia do Brasil??
Mas antes de alocar capital, é fundamental entender como essa classe funciona, quais são os riscos reais e como identificar os melhores FIAgros para o seu perfil.
É exatamente isso que este artigo aborda de forma objetiva e analítica.
O que são FIAgros?
FIAgros é a sigla para Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais. Trata-se de uma classe de fundo criada pela Lei 14.130/2021 .
Com o objetivo de captar recursos de investidores para financiar atividades ligadas ao agronegócio brasileiro — desde a produção rural até a industrialização e comercialização de produtos agrícolas.
Aliás, a regulamentação definitiva da classe foi publicada pela CVM em setembro de 2024, por meio da Resolução CVM nº 214, que estabeleceu regras mais detalhadas sobre composição de carteira, obrigações dos gestores e proteção ao investidor.
Além disso, os FIAgros são negociados na B3 (bolsa de valores brasileira) e podem ser adquiridos por qualquer investidor pessoa física com conta em corretora, com investimento inicial muitas vezes abaixo de R$ 100.
Como os FIAgros funcionam na prática?
Imagine um fundo que capta recursos de milhares de investidores e usa esse capital para comprar Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) — títulos emitidos por produtores rurais, cooperativas ou tradings que precisam de financiamento para suas operações.
A fim de receber os juros desses títulos e os distribui aos cotistas como dividendos periódicos.
Da mesma forma, o fundo pode adquirir imóveis rurais (fazendas, silos, armazéns) e cobrar aluguel dos produtores, gerando renda para os cotistas.
Cada FIAgro tem sua estratégia definida em regulamento, e é essencial lê-lo antes de investir.
Tipos de FIAgros
A Resolução CVM nº 214 estrutura os FIAgros em quatro subclasses, cada uma com perfil de risco e estratégia distintos:
- FIAgro-Imobiliário: Investe em imóveis rurais como fazendas, silos e armazéns; estrutura próxima à dos FIIs de tijolos.
- FIAgro-FIDC: Aplica em direitos creditórios originados nas cadeias do agronegócio.
- FIAgro-FIP: Investe em participações societárias em empresas do setor agroindustrial.
- FIAgro-Multimercado: Criado pela Resolução CVM 214; combina ativos de diferentes categorias sem concentração obrigatória em um único tipo.
FIAgros vs. FIIs: principais diferenças
Embora ambas as classes sejam negociadas em bolsa e ofereçam isenção de IR nos dividendos para pessoas físicas, há diferenças importantes:

Em princípio, a principal diferença prática é que os FIAgros não possuem obrigação legal de distribuir 95% do resultado.
O que dá mais flexibilidade ao gestor, mas pode gerar maior imprevisibilidade nos dividendos.
Além disso, os FIAgros estão expostos a fatores que os FIIs não enfrentam: sazonalidade das safras, volatilidade de commodities e risco climático.
Vantagens e Riscos dos FIAgros
Acima de tudo, entender os dois lados da equação é indispensável para qualquer investidor que considere investir em FIAgros com critério.
Vantagens:
- Isenção de Imposto de Renda sobre os dividendos recebidos por pessoas físicas cotistas.
- Rendimento atrelado ao CDI ou IPCA, o que beneficia o investidor em cenários de juros elevados como o atual.
- Exposição ao agronegócio sem precisar comprar terras, ações ou ativos ilíquidos.
- Diversificação real do portfólio com uma classe descorrelacionada dos FIIs tradicionais e das ações.
- Acesso facilitado: cotas negociadas em bolsa com liquidez diária nos fundos maiores.
- Setor robusto: o agronegócio é um dos mais resilientes da economia brasileira, com forte demanda global por commodities.
- Renda periódica: a maioria dos FIAgros distribui rendimentos mensalmente.
Riscos:
- Risco de crédito: A inadimplência de produtores rurais ou empresas do setor impacta diretamente o rendimento e o patrimônio do fundo.
- Risco climático: Seca, geada, pragas ou eventos extremos podem prejudicar a capacidade de pagamento dos devedores do fundo.
- Concentração de devedores: Fundos com poucos emissores de CRAs ficam mais vulneráveis a um problema específico.
- Sem cobertura do FGC: Diferente de CDBs e LCAs, FIAgros não contam com o Fundo Garantidor de Créditos.
- Oscilação nos dividendos: A distribuição pode variar conforme o ciclo agrícola e o desempenho dos ativos.
- Classe relativamente nova: A regulamentação definitiva só veio em 2024, o que significa menos histórico longo para análise.
- Liquidez variável: Fundos menores podem ter baixo volume diário de negociação, dificultando a saída.
Como avaliar um FIAgro antes de Investir
A decisão de investir em FIAgros exige análise criteriosa. Pois não basta olhar apenas para o rendimento dos últimos meses — é preciso entender a estrutura do fundo e seus riscos. Logo, veja os principais critérios:
1. Patrimônio Líquido (PL)
Fundos com PL maior tendem a ser mais diversificados e a ter melhor liquidez no mercado secundário. Afinal, um PL elevado também indica maior confiança dos investidores institucionais na gestão.
2. Liquidez Média Diária
É o volume médio de cotas negociadas por dia. Inclusive, fundos com baixa liquidez podem dificultar a venda das cotas em momentos de necessidade ou de mercado adverso.
Em geral, recomenda-se verificar pelo menos os últimos 3 meses de liquidez.
3. Diversificação da Carteira
Verifique quantos devedores ou emissores compõem a carteira do fundo. Afinal, um único devedor respondendo por mais de 5%–15% do portfólio representa concentração de risco relevante.
Ainda mais, consulte o relatório gerencial mensal do fundo, de publicação obrigatória.
4. P/VP (Preço sobre Valor Patrimonial)
Indica a relação entre o preço da cota no mercado e o valor patrimonial por cota. Aliás, abaixo de 1,0 pode indicar desconto e oportunidade. Pelo contrário, acima de 1,0 pode sinalizar sobrepreço.
Mas atenção: um P/VP baixo pode refletir um problema real nos ativos do fundo.
5. Dividend Yield
É o rendimento percentual dos dividendos em relação ao preço da cota. Assim sendo, compare sempre com o CDI atual — um FIAgro que rende menos que o CDI bruto sem isenção pode não compensar o risco assumido.
6. Qualidade do Gestor
Avalie o histórico da gestora no mercado de crédito e no agronegócio. Em síntese, destoras com maior experiência em análise de crédito agroindustrial têm mais ferramentas para identificar e mitigar riscos de inadimplência.
7. Taxas de Administração e Performance
Taxas elevadas corroem o rendimento líquido ao longo do tempo. Portanto, verifique a taxa de administração e se há taxa de performance.
Melhores FIAgros em 2026
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional certificado e verifique os dados atualizados antes de tomar qualquer decisão
Sobretudo, os fundos abaixo se destacam com base em critérios verificáveis: liquidez, patrimônio líquido, consistência na distribuição de rendimentos e desempenho recente.
KNCA11 — Kinea Crédito Agro FIAgro
Gestora: Kinea Investimentos (grupo Itaú)
Estratégia: Fundo de crédito com exposição a CRAs diversificados, com lastro em diferentes elos da cadeia do agronegócio, tanto indexados ao CDI quanto ao IPCA.
Pontos fortes:
- Maior liquidez diária entre todos os FIAgros, com média de R$ 2,87 milhões por dia
- Gestora com sólido histórico no mercado de crédito privado
- Carteira amplamente diversificada em número de devedores
- Referência de qualidade na classe para investidores institucionais
Desempenho recente: Rendimento consistente com dividend yield de 14% nos últimos 12 meses, anualizado superior ao CDI e líquido de IR. O valor da cota valorizou 35% nos últimos 12 meses.
RURA11 — Itaú Asset Rural FIAgro
Gestora: Itaú Asset Management
Estratégia: Carteira de CRAs com foco em grandes empresas e cooperativas do agronegócio brasileiro, priorizando crédito de alta qualidade.
Pontos fortes:
- Um dos maiores PL da categoria, próximo a R$ 1,6 bilhão.
- Liquidez média diária de R$ 2,19 milhões — segunda maior da classe.
- Respaldo da maior gestora do Brasil por ativos.
- Dividend yield médio anualizado entre 15% e 16%.
Desempenho recente: Distribuições estáveis e crescentes ao longo de 2025. O valor da cota valorizou 42% nos últimos 12 meses.
Risco: Oscilação nos dividendos mais acentuada em determinados meses; exposição a grandes players do setor pode mascarar riscos setoriais concentrados.
CPTR11 — Capitânia Agro FIAgro
Gestora: Capitânia Investimentos
Estratégia: Gestão ativa de CRAs com foco em identificar oportunidades de crédito com relação risco-retorno assimétrica no agronegócio.
Pontos fortes:
- Gestora com histórico consolidado no mercado de crédito privado brasileiro
- Abordagem analítica e criteriosa na seleção de ativos
Desempenho recente: Está entre os líderes no ranking de rentabilidade da classe em 2025. O valor da cota valorizou 46% nos últimos 12 meses.
Risco: Rentabilidade passada não garante retorno futuro, maior seletividade pode significar menor diversificação em alguns momentos.
RZAG11 — Riza Agro FIAgro
Gestora: Riza Asset Management
Estratégia: CRAs com foco em segmentos específicos do agronegócio, buscando prêmios de crédito acima da média do mercado.
Pontos fortes:
- P/VP próximo a 0,93, indicando desconto de ~7% sobre o valor patrimonial.
- Estratégia focada em prêmios de risco, beneficiando investidores em ciclos de juros altos.
Desempenho recente: Consistentemente entre os melhores da classe em desempenho absoluto. O valor da cota valorizou 26% nos últimos 12 meses.
Risco: Perfil de crédito mais arrojado eleva o risco em cenários de estresse no agronegócio; concentração em segmentos específicos pode ampliar a volatilidade.
Conclusão
FIAgros vale a pena? Para investidores que buscam diversificação, isenção de IR nos dividendos e exposição a um dos setores mais relevantes da economia brasileira, essa classe oferece oportunidades concretas — especialmente em um ambiente de Selic elevada, que favorece fundos atrelados ao CDI.
Em 2025, a classe provou sua relevância com retornos expressivos e consistência nas distribuições.
Para 2026, o cenário segue favorável, mas analistas ressaltam que cautela é necessária: riscos climáticos, possíveis eventos de inadimplência e a maior complexidade regulatória exigem análise mais criteriosa do que simplesmente perseguir o maior yield.
Rendimento passados não é garantia de retorno futuro. Por certo, diversifique entre diferentes subclasses, avalie o histórico da gestora, leia os relatórios mensais e, se possível, consulte um profissional de investimentos certificado.
O agronegócio brasileiro é forte — mas qualquer investimento exige conhecimento antes de capital.
Disclaimer
O autor é certificado pela ANBIMA como Especialista de Investimentos (CEA / C-PRO R).
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional e informativo, não constituindo oferta, recomendação de compra ou venda de valores mobiliários, nem prestação de consultoria de investimentos.
As análises e opiniões refletem interpretações pessoais com base em informações públicas disponíveis no momento da publicação e estão sujeitas a mudanças.
O autor mantem posição no ativo KNCA11 citado; sempre que o autor tiver posição nos ativos citados e/ou ter relações comerciais (ex.: afiliados/patrocínios); isso será indicado no próprio conteúdo.
Investimentos em fundos de investimentos nas Cadeias Produtivas Agroindustriais envolvem riscos e podem não ser adequados a todos os perfis.
Antes de investir, avalie seus objetivos, situação financeira e perfil de risco, e, se necessário, procure um profissional devidamente habilitado.